A crônica -> “O maldito Sobrinho…”

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Quem nunca encontrou um “sobrinho” diante do caminho e que nunca precisou refazer um trabalho dele que atire a primeira pedra.

– Estou precisando fazer um web site. Quando você cobra?
– Depende do que precisa. Com design, banco de dados, dinâmico e etc… uns quatro mil.
– Nossa, tudo isso? Então deixe que vou pedir para meu sobrinho fazer.

Quem nunca passou por esta situação? Tanto no desenvolvimento quando na criação, sobrinhos são como pragas que infestam lavouras e fazem o profissional perder a paciência em todos os sentidos. Perde-se tempo montando uma proposta de serviços, perde-se tempo pesquisando, perde-se tempo no telefone e depois, lá adiante, perde-se novamente todo este tempo novamente para arrumar o que o sobrinho fez errado. Mas quem é o sobrinho afinal?

No começo de minha profissionalização na área de TI, usávamos o termo “sobrinho” para designar aquele que come angú e arrota peru. Diferentemente de um estagiário, o sobrinho acredita que é o super-homem mas não passa de um chapolin colorado que nos propicia as mais belas pérolas de como não fazer algo, principalmente depois que achou aquele “tutorial bacana” na Internet e acredita que consegue resolver qualquer problema. Sofrendo de uma crônica incapacidade de se colocar dentro de suas limitações, os sobrinhos conseguem o mais improvável: estragar não somente sua vida mas a de terceiros também.

Semana passada em visita a um grande cliente, este me contou a história dos sobrinhos que lá apareceram. Dignos de credibilidade até então, disseram que poderiam dar nó em pingo d’água e mascar azulejo. Contratados para alguns treinamentos, que vexame! os treinandos sabiam mais que aqueles que lá estavam teoricamente ensinando e no final, aquele fiasco. Não contentes, conseguiram jogar a culpa em conjunções dignas de astrólogos indianos e continuam na ativa, importunando como moscas em dia de calor.

Com o advento de ferramentas easy-to-use, a classe dos sobrinhos cresce exponencialmente e infesta todas as áreas possíveis e imagináveis. Existem sobrinhos personal trainner, sobrinhos mecânicos, sobrinhos programadores e até mesmo sobrinhos advogados, todos conspirando conjuntamente para a derrocada do bom trabalho, do bom preço e principalmente, do bom resultado.

Dentro de minha área de atuação sobrinho é mato em terreno baldio. Com a pseudo-facilidade de uso das modernas ferramentas de gestão de conteúdo tais como Drupal, Joomla! e Mambo, baixam o sistema da Internet, aproveitam-se de alguns temas disponíveis gratuitamente na rede e bam! nasce outro sobrinho para atazanar. Outro amigo, designer, lamenta a mesma coisa; um dreamweaver na mão e lá vem mais um sobrinho criador, desta vez, “designer”. Esquecem estes que qualquer ferramenta por sí não faz o trabalho. É necessário um profissional que saiba trabalhar com a ferramenta no intuito de aproveitar ao máximo suas opções e capacidades e que para isso leva-se tempo de estudo, treinamento, leitura, pesquisa e muitas horas diante de uma tela.

O leitor pode estar pensando: “isso é conversa de quem não consegue trabalho”. Ledo engano. É conversa de quem tem que refazer o trabalho que o sobrinho executou de forma errada ou que simplesmente no meio do projeto desapareceu. O cliente sempre vem, seja por coerência ou ainda com hematomas adquiridos quando caiu-se nas armadilhas armadas pelos sobrinhos ao longo do projeto. Claro, perder ninguém gosta e para um sobrinho mais ainda. Mas o que pior é aceitar apagar um incêndio e depois perceber o tamanho da bomba de napalm que o sobrinho deixou para você.

Não sendo sobrinho

Como a área de TI sofre constantemente com este espécime e para que não caia na armadilha de se tornar sobrinho, algumas dicas são bem vindas:

Limite-se a sua ignorância

Procure no dicionário; ignorância não é sinônimo de burrice. Ser ignorante é não saber determinado assunto ou algo. Se você não sabe, assuma este papel e procure aprender. Será melhor para você e para todos.

Seja honesto

Não existe coisa pior que dizer para um cliente “eu faço” e depois não conseguir fazer. Neste ponto a ignorância se torna burrice, você perde o cliente e arruma trabalho sujo para outro fazer. É muito melhor deixar claro quais são seus limites do que assumir um compromisso que não faz idéia de como resolver.

Dê passos menores que suas pernas

Não são passos do tamanho de suas pernas, mas sim menores que elas. Com esta atitude você poderá entregar mais do que prometeu e “ficará bem na foto” com todo mundo.

Aprenda com quem já faz

Caiu um projeto grande em sua mão e não sabe por onde começar? Chame parceiros para trabalhar contigo e partilhe os dividendos tanto financeiros quanto de aprendizado. Trabalhando em conjunto você aprende, não passa vergonha diante do cliente, entrega um bom produto e cria um portifólio para sua carreira.

Fácil não é simples

Não acredite que fácil é sinônimo de simples. É fácil chegar a Antártida mas não é simples chegar lá. Ferramentas easy-to-use facilitam muito sua vida e sendo assim, aproveite o tempo que sobra para estudá-la a fundo tornando-se um expert.

Fuja da síndrome de super-homem

Não aceite qualquer coisa para fazer pois por mais simples que seja. Qualquer compromisso tem um resultado embutido nele e você terá que honrá-lo. Vá com menos sede ao pote e dê tempo ao tempo. Tudo tem sua hora para acontecer e certamente se praticar e tiver paciência, seu futuro será muito sólido e não motivo de piadas nas rodas dos profissionais de TI.

E você? É sobrinho?

Agradecimentos? Sim, a um grande desenvolvedor de soluções, Paulino Michelazzo.

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